segunda-feira, 17 de junho de 2013

O ASSALTO

Luís Fernando Veríssimo

Quando a empregada entrou no elevador, o garoto entrou
atrás. Devia ter uns dezesseis, dezessete anos. Preto. Desceram no mesmo andar. A empregada com o coração batendo.
 O corredor estava escuro e a empregada sentiu que o garoto a seguia. Botou a chave na fechadura da porta de serviço, já em pânico. Com a porta aberta, virou-se de repente e gritou para o garoto:
- Não me bate!
- Senhora?
- Faça o que quiser, mas não me bate!
- Não, senhora, eu...

A dona da casa veio ver o que estava havendo. Viu o garoto na porta e o rosto apavorado da empregada e recuou, até pressionar as costas contra a geladeira.
- Você está armado?
- Eu? Não.

A empregada, que ainda não largara o pacote de compras,
aconselhou a patroa, sem tirar os olhos do garoto:
- É melhor não fazer nada, madame. O melhor é não gritar.
- Eu não vou fazer nada, juro! – disse a patroa, quase aos
prantos. – Você pode entrar. Você pode fazer o que quiser. Não precisa usar de violência.
O garoto olhou de uma mulher para a outra. Apalermado.
Perguntou:
- Aqui é o 712?
- O que você quiser. Entre. Ninguém vai reagir.
O garoto hesitou, depois deu um passo para dentro da
cozinha. A empregada e a patroa recuaram ainda mais. A patroa esgueirou-se pela parede até chegar à porta que dava para a saleta de almoço. Disse:
- Eu não tenho dinheiro. Mas o meu marido deve ter. Ele
está em casa. Vou chamá-lo. Ele lhe dará tudo.
O garoto também estava com os olhos arregalados.
Perguntou de novo:
- Este é o 712? Me disseram para pegar umas garrafas no
712.

A mulher chamou, com a voz trêmula:
- Henrique!
O marido apareceu na porta do gabinete. Viu o rosto da
mulher, o rosto da empregada e o garoto e entendeu tudo. Chegou a hora, pensou. Sempre me indaguei como me comportaria no
caso de um assalto. Chegou a hora de tirar a prova.

- O que você quer? – perguntou, dando-se conta em
seguida do ridículo da pergunta. Mas sua voz estava firme.
- Eu disse que você tinha dinheiro – falou a mulher.
- Faço um trato com você – disse o marido para o garoto –
dou tudo de valor que tenho em casa, contanto que você não toque em ninguém.
E se as crianças chegarem de repente? Pensou a mulher.
Meu Deus, o que esse bandido vai fazer com as minhas crianças?

O garoto gaguejou:
- Eu... eu... é aqui que tem umas garrafas para pegar?

-Tenho um pouco de dinheiro. Minha mulher tem jóias. Não
temos cofre em casa, acredite em mim. Não temos muita coisa.
-Você quer o carro? Eu dou a chave.
Errei, pensou o marido. Se sair com o carro, ele vai querer ter certeza de que ninguém chamará a polícia. Vai levar um de nós com ele. Ou vai nos deixar todos amarrados. Ou coisa pior...

- Vou pegar o dinheiro, está bem? – disse o marido.
O garoto só piscava.
- Não tenho arma em casa. É isso que você está pensando?
Você pode vir comigo.
O garoto olhou para a dona da casa e para a empregada.
- Você está pensando que elas vão aproveitar para fugir, é
isso? – continuou o marido. – Elas podem vir junto conosco.
Ninguém vai fazer nada. Só não queremos violência. Vamos todos para o gabinete.
A patroa, a empregada e o Henrique entraram no gabinete.
Depois de alguns segundos, o garoto foi atrás. Enquanto abria a gaveta chaveada da sua mesa, o marido falava:
- Não é para agradar, mas eu compreendo você. Você é
uma vítima do sistema. Deve estar pensando, “Esse burguês cheio da nota está querendo me conversar”, mas não é isso não. Sempre me senti culpado por viver bem no meio de tanta miséria. Pode perguntar para a minha mulher. Eu não vivo dizendo que o crime é um problema social? Vivo dizendo. Tome. É todo o dinheiro que tenho em casa. Não somos ricos. Somos, com alguma boa vontade, da média alta. Você tem razão. Qualquer dia também começamos a assaltar para poder comer. Tem que mudar o sistema. Tome.

O garoto pegou o dinheiro, meio sem jeito.
- Olhe, eu só vim pegar as garrafas...
- Sônia, busque as suas jóias. Ou melhor, vamos todos
buscar as jóias.
Os quatro foram para a suíte do casal. O garoto atrás. No
caminho, ele sussurrou para a empregada:
- Aqui é o 712?
- Por favor, não! – disse a empregada, encolhendo-se.
Deram todas as jóias para o garoto, que estava cada vez
mais embaraçado. O marido falou:
-Não precisa nos trancar no banheiro. Olhe o que eu vou
fazer. Arrancou o fio do telefone da parede.
- Você pode trancar o apartamento por fora e deixar as
chaves lá embaixo. Terá tempo de fugir. Não faremos nada. Só não queremos violência.

- Aqui não é o 712? Me disseram para pegar umas garrafas.
- Nós não temos mais nada, confie em mim. Também somos vítimas do sistema. Estamos do seu lado. Por favor, vá embora!
A empregada espalhou a notícia do assalto por todo o prédio.
Madame teve uma crise nervosa que durou dias. O marido
comentou que não dava mais para viver nesta cidade. Mas achava que tinha se saído bem. Não entrara em pânico. Ganhara um pouco da simpatia do bandido. Protegera o seu lar da violência. E não revelara a existência do cofre com o grosso do dinheiro, inclusive dólares e marcos, atrás do quadro da odalisca.
A teoria na prática: Construção de Situação de aprendizagem em foco de leitura.
Texto: O assalto
Autor: Luis Fernando Veríssimo
 Ativação de conhecimento de mundo
1-      Apresentar o título do texto e colher informações prévias de conhecimento dos referidos alunos. Focar no título e analisar com os mesmos se este nos faz sentir medo.
2-       Recortar o texto pelas cores e distribuí-lo  após discutir e debater cada parte, somada a um clímax ao qual a mesma nos submete.
3- Na primeira parte, depois de lida e analisada argumentar sobre a palavra Preto, destacada no mesmo e amarrá-la ao título e aos “medo” (reconhecer nessa hora que pessoas humildes, vestidas de maneira precária e negras, ainda no século XXI, infelizmente ainda “parecem gerar ameaças”.
·         Checagem de hipóteses e localização de informações
4-      A situação apresentada pelo texto no início se confirmou?
5-      Qual era o objetivo do garoto, que tantas vezes perguntou se ali era o apartamento 712?
6- O desespero, com relação a assaltos e a presença da um adolescente, como o citado acima, parecem fazer com que as pessoas em alguns momentos se portem como se fossem surdas? Diante de uma situação como essa, e se fôssemos de classe média lata, também se daria conosco?
 Percepção de outras linguagens
7- Criação de uma HQ e, após, a encenação do texto (trazendo a HQ como cenas do cotidiano)
 Para pensar:
8- No texto há um juízo de valor?
9- É comum, através da raça, credo, vestimenta, não ouvirmos o que alguém tem para falar e, de imediato, atribuirmos um juízo de valor?
10- À medida que vamos lendo o texto, esse “juízo” faz com que mudemos?
11- Isso aconteceu com a família e a empregada?     
12- Qual a posição do aluno em relação ao desfecho?
 Elaboração das apreciações estéticas e ou afetivas (neste momento agrupar os alunos)
13- Oralmente, pedir aos alunos para que contem outros casos onde predomine, sem análise anterior alguma, a aplicação de outros juízos de valor.
Debate
14- Em grupos os alunos deverão dar outro título à história.
15- Em seguida, deverão escrever um parágrafo dissertativo-arugumentativo, sobre a essência da história lida.
16- Para finalizar, deverão pesquisar, fatos como o da história, que por equívoco, levaram pessoas a cumprirem penas, tirando-as do convívio social. Quais as medidas, após ter sido descoberto o equívoca, foram tomadas. Essas pessoas retornaram sua vida com normalidade?



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