A CORROSÃO DO COTIDIANO NO CONTO “PAUSA” DE MOACYR SCLIAR
Virginia Salvador de Oliveira (UECE)
Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro
magnífico que permite ouvir a língua fora do
poder, no esplendor de uma revolução
permanente da linguagem, eu a chamo,
quanto a mim: Literatura.
(Roland Barthes)
Resumo: Neste trabalho pretende-se abordar uma pequena parte da grande produção de
Moacyr Scliar, tendo como foco o conto Pausa. Esse conto traz uma abordagem de um dos
grandes problemas do chamado homem moderno, o estresse do cotidiano. Além disso, faz-se
uma breve análise da vida do autor e uma análise do conto baseado em conceitos de Massaude
Moisés, além de, concisamente, ressaltar alguns aspectos semânticos de extrema importância.
Convém explicitar também os aspectos universais do conto que, provavelmente, são grandes
responsáveis pelo impacto que esse texto provoca. Detalhes também são observados, como o
título do conto e seus significados possíveis, o uso de certos objetos indicativos de tempo que
fazem alusão à rotina, o uso recorrente dos mais variados tipos de metáforas e como estas nos
ajudam a fazer associações com aspectos do dia a dia, e que atitudes do personagem Samuel
fazem com que saibamos que há a marca de uma corrosão. É importante ressaltar que as
análises e destaques que serão feitos nos ajudarão a perceber aspectos comuns e próprios do
nosso cotidiano como seres humanos, que muitas vezes passam despercebidos em vista da
rapidez com que ocorrem os fatos no dia a dia. A partir das análises feitas, espera-se que o
trabalho ajude no que se refere à exemplificação de como a escrita se aproxima de forma
verossímil da realidade; de como o ficcional pode ser tão humano e real, utilizando-se de
situações comuns que são vistas e vividas diariamente. O conto tem seu fim, mas não a ideia,
tampouco este trabalho, pois um conto com um personagem cuja densidade psicológica é tão
atraente, não pode ter uma interpretação fechada, definida.
Palavras chaves: Conto, cotidiano, pausa, análise, interpretação.
1. INTRODUÇÃO
Pretendemos abordar uma pequena parte da grande produção de Moacyr Scliar, focando
em um dos seus contos. O escolhido é o conto Pausa. Este faz parte do audiobook ‘Pausa – 25
Contos Do Moacyr Scliar’, lançado em 2008 pela Editora ‘Livro Falante’.
O léxico, a semântica, a densidade psicológica, entre outros pontos serão abordados na
análise desse fabuloso texto, em que o autor surpreende mesmo quando se propõe a ser
simples, abordando assuntos cotidianos, como a fuga do estresse da rotina. Em um curto
espaço de tempo, é explorado o que não sabemos e o que não queremos saber da vida.
2. VIDA E OBRA DO AUTOR
Moacyr Jaime Scliar nasceu em Porto Alegre (RS), no Bom Fim, bairro que até hoje reúne
a comunidade judaica, a 23 de março de 1937, filho de José e Sara Scliar. Sua mãe, professora
primária, foi quem o alfabetizou. Cursou, a partir de 1943, a Escola de Educação e Cultura,
daquela cidade, conhecida como Colégio Iídiche. Transferiu-se, em 1948, para o Colégio
Rosário, uma escola católica.
Em 1955, passou a cursar a faculdade de medicina da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul, em Porto Alegre (RS), onde se formou em 1962. Em 1963, ele inicia seu trabalho
como médico, fazendo residência em uma clínica médica. Trabalhou junto ao Serviço de
Assistência Médica Domiciliar e de Urgência (SAMDU), daquela capital.
Scliar publicou mais de setenta livros, entre crônicas, contos, ensaios, romances e literatura
infanto-juvenil. Seu estilo leve e irônico lhe garantiu um público bastante amplo de leitores, e
em 2003 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, tendo recebido antes uma grande
quantidade de prêmios literários como o Jabuti (1988, 1993 e 2009), o Associação Paulista de
Críticos de Arte (APCA) (1989) e o Casa de las Americas (1989).
Suas obras frequentemente abordam a imigração judaica no Brasil, mas também tratam
temas como o socialismo, a medicina (área de sua formação), a vida de classe média e vários
outros assuntos. O autor já teve obras suas traduzidas para doze idiomas.
Em 2002 ele se envolveu em uma polêmica com o escritor canadense Yann Martel, cujo
famoso romance A Vida de Pi, vencedor do prêmio Man Booker, foi acusado de ser um plágio
da sua novela Max e os felinos. O escritor gaúcho, no entanto, diz que a mídia extrapolou ao
tratar do caso, e que ele nunca teve o intuito de processar o escritor canadense. Entre suas
obras mais importantes estão os seus contos e os romances O ciclo das águas, A estranha
nação de Rafael Mendes, O exército de um homem só e O centauro no jardim, este último
incluído na lista dos 100 melhores livros de temática judaica dos últimos 200 anos, feita pelo
National Yiddish Book Center nos Estados Unidos.É o sétimo ocupante da cadeira 31 da Academia Brasileira de Letras. Foi eleito em 31 de
julho de 2003, na sucessão de Geraldo França de Lima, e recebido em 22 de outubro de 2003
pelo acadêmico Carlos Nejar.
3. ANALISE FORMAL DO CONTO
Utilizaremos os critérios de Massaude Moisés, focando a unidade de tempo, a unidade de
espaço, a unidade dramática, o número de personagens, a situação do diálogo e o tipo textual.
Além disso, pretendemos definir o personagem do conto.
A unidade de tempo é um pouco mais de doze horas. O conto começa quando o
personagem Samuel acorda às sete horas da manhã e acaba quando o mesmo personagem sai
do hotel um pouco depois das dezenove horas. A unidade de espaço que prevalece é o hotel
pequeno e sujo em que Samuel passa o domingo. Mas além desse, tem a casa do personagem,
utilizada no começo do texto.
A unidade dramática é a tentativa de fuga feita pelo executivo Samuel da sua rotina,
alugando um hotel todos os domingos com um nome falso, Isidoro. Alugando sempre o
mesmo quarto, sentava-se na cama, comia os sanduíches que preparara em casa, configurava
o despertador para tocar às dezenove horas e dormia. Enquanto isso, sua mulher,
aparentemente mal humorada e desagradável, acreditava que o marido estava trabalhando no
escritório.
O número de personagens é bem reduzido: Samuel ou Isidoro (protagonista), a esposa do
Samuel, o gerente do hotel e duas mulheres gordas que estavam no hotel. A mulher do
Samuel não tem um nome no texto, mas é caracterizada como um sujeito aparentemente
rejeitado. Prova disso é que Samuel ao se levantar evita fazer barulho para que ela não
perceba que irá sair novamente, prefere comer sanduíches a vir almoçar em casa, o diálogo
entre o casal é muito curto e antes que ela fale muito, ele pega o chapéu e sai.
Os diálogos no texto são frases curtas, o que pode ser uma sugestão para a pressa da rotina,
ou seja, mesmo Samuel tentando fugir do estresse do cotidiano, ele não consegue ter mais
calma nas ações. Para melhor exemplificar, chamaremos atenção a um elemento muito
importante na narrativa, o despertador. Isso nos faz refletir que cada momento é
cronometrado, que a história é formada em torno de um círculo, de uma rotina. Por mais que o
personagem tente construir outro mundo, fugir daquela situação, que até mude o seu nome,
ele sempre estará preso a determinados padrões e comportamentos que já estão inseridos na
cultura do homem moderno.
O tipo textual é narrativo, relatando a história de um jovem rapaz casado com uma mulher
aparentemente desagradável. Todos os domingos, o personagem que usava outro nome como
disfarcem com o pretexto de ir trabalhar, ia dormir em um hotel. Refugiava-se em sonhos e só
depois de ser acordado pelo despertador, voltava para casa, admirando a paisagem,
lentamente, voltando para sua realidade.
4. ASPECTOS SEMÂNTICOS RELEVANTES NO CONTO
O conto relata a história de Samuel, um jovem rapaz casado com uma mulher
aparentemente mal humorada e de companhia desagradável. Todos os domingos Samuel,
também chamado de Isidoro, nome que usava como disfarce, era despertado às sete horas da
manhã. Lavava-se, preparava sanduíches e saia de casa com um pretexto de que iria trabalhar
no escritório, mas, a realidade era outra, ele direcionava-se para um hotel pequeno e sujo,
onde era atendido pelo porteiro que já o conhecia. Lá passava o dia inteiro dormindo,
tentando se refugiar da correria do cotidiano transformando o seu mundo em um mar de
sonhos e só após ser despertado por um relógio, retornava para casa, lentamente, observando
a paisagem, voltando ao seu mundo real.
A utilização do título “Pausa” pode ser vista tanto como uma possível interrupção na
rapidez com que as coisas têm acontecido como também a necessidade de uma reflexão
acerca de sua existência e o reflexo dessa postura na sociedade vigente. No decorrer do conto
vários caracteres da vida Pós-Moderna vão se apresentando e criando forma através de
objetos, atitudes, situações e sentimentos.
O despertador, por exemplo, marca o tempo, a necessidade de cronometrar as atividades a
serem realizadas, a fim de, não esquecer e nem se atrasar. Para essa narrativa, este é um objeto
de extrema necessidade, pois, Samuel ao ouvi-lo tocar salta da cama e começa a rotina do dia,
sendo uma de suas atividades preparar sanduíches, comida de fácil e rápido preparo que
marca o processo de industrialização cada vez mais propício a atender a necessidade das
pessoas e também seu conseqüente lucro.
Através do trecho: “Muito trabalho. Não há tempo. Levo um lanche” é possível perceber
como a velocidade tem invadido e tornado mecânico o cotidiano das pessoas tanto pelo
significado que elas apresentam quanto pelo uso de frases curtas.
O autor também deixa transparecer a sua voz no desenrolar dos acontecimentos com a
expressão “dormir”. A personificação também é marca registrada em alguns momentos:
“cidade começava a mover-se, automóveis buzinando, noite caia” etc.
O texto também apresenta a fuga do personagem Samuel, na tentativa se refugiar do stress
do dia-a-dia, ao construir outra rotina que é praticada aos domingos. No entanto, por mais que
ele se isole do mundo “real”, os seus hábitos são característicos da correria do cotidiano. Não
tem tempo para conversar com o porteiro, as mãos são limpas no próprio guardanapo e não
lavadas, enfim, a personagem muda as características de sua rotina, mas, o aspecto da intensa
velocidade que o rodeia é a mesma, a vida social está presente em cada instante, pois como
ressalta. A sociedade condiciona o homem e mesmo que se tente fugir dela é inútil.
Outro aspecto relevante a ser observado é a angústia de Samuel durante o sono, pois,
mesmo depois de toda uma preparação para o tão esperado descanso, ele continua agitado,
sonhando com brigas, agitações, correrias. Alguns dos seus sonhos tinham certa relação com a
natureza, talvez por ser o seu desejo não realizado por falta de tempo. A figura da esposa de Samuel é apresentada no conto com alguns aspectos que nos leva a
entender que há uma espécie de rejeição por parte do esposo. Samuel ao se levantar evita
fazer barulho para que ela não perceba que irá sair novamente, prefere comer sanduíches a vir
almoçar em casa, o diálogo entre o casal é muito curto e antes que ela fale muito, ele pega o
chapéu e sai. Esta suposta rejeição também pode ser identificada no texto, num primeiro
momento a mulher aparece bocejando, em seguida ela o interroga com um azedume na voz
que pode ser identificada de duas formas, ou ela está acordando naquele exato momento, ou
estar de mau humor e cansada. Por fim, ela aparece coçando a axila esquerda,
comportamentos estes que leva a um suposto desmazelo, que também pode ser motivo para o
desprezo do marido.
Contudo, durante toda a narrativa, a presença de objetos identificadores do tempo é
constante, e isso, nos faz refletir que cada momento é cronometrado, que a história é formada
em torno de um círculo, de uma rotina. Por mais que a personagem tente construir outro
mundo, fugir daquela situação, que até mude o seu nome, ela sempre estará presa a
determinados padrões e comportamentos que já estão inseridos na cultura do homem
moderno.
5. ASPECTOS UNIVERSAIS DO CONTO
O conto é extremamente surpreendente, mostra claramente, como mesmo disse Moacyr
Scliar, o quanto o ser humano é esquisito. O nome do conto pode apresentar duas
interpretações básicas: Uma pausa na rapidez com que as coisas acontecem no cotidiano do
personagem ou uma pausa na própria existência do personagem Samuel, sendo substituído
por Isidoro.
Um dos seus aspectos universais é exatamente essa pressa do dia-a-dia do homem
moderno. Podemos perceber isso, por exemplo, através do trecho: “Muito trabalho. Não há
tempo. Levo um lanche.”. É possível perceber como a velocidade tem invadido e tornado
mecânico o cotidiano das pessoas tanto pelo significado que elas apresentam quanto pelo uso
de frases curtas.
Outro aspecto é a distância entre marido e esposa, como podemos perceber em um
primeiro momento quando a mulher aparece bocejando e interroga o personagem principal
com uma voz de azedume, podendo indicar cansaço e mau humor. Por fim, ela aparece
coçando a axila esquerda, comportamento que indica desmazelo, talvez seja até mesmo outro
motivo para o desprezo do marido.
É importante ainda lembrar a fuga de personalidade que Samuel faz. A pausa representa
um refúgio, uma fuga da realidade, do meio social e familiar. É nesse momento que Samuel,
passando-se por Isidoro, manifesta seus desejos e sua insatisfação com a vida. Ele tem medo
de ser reconhecido, ou seja, medo de que seja identificado pela sociedade, e isso é ratificado
no trecho: "Olhou para os lados entrou furtivamente". O personagem enquanto sujeito faz o
ato de negar a sua própria identidade para o mundo e para si mesmo. Além disso, outro trechoque nos leva crer que ele busca ocultar-se é que ao estar no carro, guia vagarosamente, mas ao
ir ao encontro do seu objeto de desejo, tem a preocupação de estacionar o carro distante do
hotel "sujo" e caminhar apressadamente.
6. CARACTERÍSTICAS DO AUTOR PRESENTE NO CONTO
No conto Pausa podemos observar um texto simples e fluente, característica básica da
literatura de Moacyr Scliar.
A principal característica de sua escrita, que podemos destacar em Pausa, é a discussão do
tema da identidade cultural na pós-modernidade. Em outras palavras, como as personagens
presentes nos contos representam o sujeito pós-moderno, considerado pelos antropólogos
como sujeitos fragmentados e dicotômicos. Há uma preocupação do autor em tentar entender,
por meio da narrativa, a condição humana.
Além disso, observamos também a preferência por personagens carentes de identificação -
seres sem nome ou qualquer outro traço que os individualize. Samuel, também era chamado
de Isidoro, o que lhe caía como um tipo de disfarce, uma fuga de sua individualização.
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